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O jogo de interesses ($$$) foi o que “rachou” a Assembléia de Deus.

 

“Os homens se juntaram e tomaram de Deus a Assembleia de Deus, que agora é dos homens…”.

 

No dia 06/11, conforme protocolo entregue na sede da CGADB, no Rio de Janeiro. O pastor Samuel Câmara se desligou, oficialmente, da entidade. No documento que o próprio pastor divulgou em seu site, ele saiu apenas da Convenção Geral e não da Assembleia de Deus em Belém, a chamada “Igreja Mãe”. O documento foi redigido curiosamente no dia 31 de outubro, dia da Reforma (kkkkkkkkkkkkk que piada).

A nova convenção, da qual ele é um dos líderes, terá o nome de Convenção das Assembleias de Deus do Brasil (CADB). Estima-se que até 25 mil pastores poderão acompanhar os irmãos Câmara na formação da CADB, o que representa uma gigantesca ruptura na maior denominação evangélica do país.

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Claro que acredito que ainda há na Assembleia um povo que, diferente de a sua liderança, serve a Deus com sinceridade e aguarda sua volta, pode ser que seja uma das únicas características que ainda assegure o nome que tem, porém não há dúvidas que suas lideranças não a estão tratando como deveriam. Vejamos:

https://noticias.gospelprime.com.br/samuel-camara-oficializa-desligamento-da-cgadb-e-forma-nova-convencao/

Centralização do Poder Econômico: Há muito tempo perdeu sua característica de comunidade simples e hoje é uma das igrejas mais ricas do Brasil. Em nível nacional, sua riqueza se concentra principalmente na CGADB – que tem como uma das principais fontes financeiras a CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus), cuja arrecadação se assemelha a de grandes editoras, como por exemplo, a Abril – e no Ministério do Belém, hegemônico entre os demais ministérios ligados à Convenção. Estrategicamente esse império, formado principalmente pela CGADB e Belém, se concentra nas mãos de pouquíssimas pessoas, lideradas pelo pastor José Wellington Bezerra da Costa (e agora seu filho), na presidência simultânea das duas entidades há mais de duas décadas.

Hereditariedade de poder:  Algo que vem acontecendo nas últimas décadas em nível regional e nacional. Isso inclusive foi o pivô da decisão de saída do Pr. Samuel Câmara.

Sem transparência financeira: A explicação que dão para tal ocultação é a segurança. Dizem que não divulgam os números para evitar assaltos. Claro que, acredito eu que qualquer assaltante bem informado sabe que igrejas movimentam rios de dinheiro. Creio que poderiam ao menos manterem os seus membros informados do total das suas contribuições. Até porque, igreja não é empresa privada, que só o dono tem acesso às informações financeiras. Legalmente as igrejas são associações civis regidas pelo Código Civil e, segunda a legislação, devem prestar contas das suas movimentações financeiras aos associados, que no caso da igreja são seus membros.

 

Vínculo com a política: Não é preciso fazer nenhum esforço mental para perceber que estas características (centralização do poder econômico, hereditariedade do poder e falta de transparência financeira) são próprias das instituições contaminadas pelo abuso de poder, pela ganância, pelo nepotismo, etc. Trata-se de um quadro muito comum na esfera político-partidária. Assim sendo, como “um abismo chama outro abismo” (Salmo 42.7), era de se esperar que a Assembleia de Deus refizesse (pelo menos tenta refazer), através de sua atuação político-partidária, o casamento entre a Igreja e o Estado, união responsável pelo apodrecimento da fé e cujo divórcio custou o sangue de mártires na História do Cristianismo.

Chama a atenção em todo esse processo o fenômeno da naturalização. Ou seja, todas essas características são vistas e vividas de forma muito natural, pela liderança e pela chamada “membresia”. A centralização e a hereditariedade do poder, a falta de comunicação e clareza sobre as contas e o relacionamento – fisiológico, inclusive – com a política, são encarados como algo muito normal e, portanto, sem a necessidade de qualquer questionamento.

Todas essas peculiaridades geralmente são justificadas pela “unção” recebida pelo “homem de Deus”, inclusive com uma equivocada interpretação do texto bíblico que diz “Não toqueis os meus ungidos, e aos meus profetas não façais mal” (1 Crônicas 16.22 e Salmo 105.15). Assim, um “ungido” centraliza o poder e designa-o a quem bem entende – geralmente aos filhos – e os demais ungidos e profetas aceitam sem nada dizer. Da mesma forma, se ele é um “ungido de Deus”, tem autonomia para administrar as finanças da igreja sem delas ter que prestar contas. Por outro lado, os membros se isentam da responsabilidade de fiscalizar, pois acreditam que seu papel é apenas trazer os dízimos (que nunca foi dinheiro) sem se preocupar com o que será feito dele.

As semelhanças desse modelo com a política, voltada para projetos pessoais, são muitas. Isso explica o casamento da igreja com a política partidária.

Thiago Barros